Política
Ministro do Meio Ambiente e ex-diretor do Inpe batem boca em programa
O ponto alto da discussão foi quando o pesquisador defendeu a soberania da ciência, e o ministro acusou o discurso de “ideologia disfarçada de ciência”.

Por Bené Barbosa
Publicado 12/08/2019
Atualizado 12/08/2019
A A
FOTO: REPRODUÇÃO/GLOBONEWS

Houve desentendimento entre o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão, durante um debate no programa Painel, exibido no sábado 10, na emissora GloboNews. O ponto alto da discussão foi quando o pesquisador defendeu a soberania da ciência, e o ministro acusou o discurso de “ideologia disfarçada de ciência”. O físico e engenheiro teve sua exoneração da diretoria do Instituto anunciada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), no dia 2 de agosto.
Galvão dizia que, para o desenvolvimento científico no Brasil, o governo deveria valorizar a ciência produzida dentro do próprio país. Ele deu como exemplo a engenheira agrônoma Johanna Döbereiner, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que desenvolveu trabalhos de sucesso em relação à fixação biológica de nitrogênio no solo e deu prestígio ao agronegócio. O especialista também citou o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e o Instituto Mamirauá.

“Uma coisa que qualquer dirigente de um país tem que entender é que, quando se trata de questões científicas, não existe autoridade acima da soberania da ciência. Nem militar, nem política, nem religiosa”, defendeu Galvão. Em seguida, Salles contrapôs: “O problema é quando a ideologia está disfarçada dentro da ciência”. Galvão respondeu: “Isso não existe para nós, ministro”.

Salles, então, rebateu: “Claro que existe. A sua própria fala mostrou isso. O que nós vimos, há muito tempo, é a ciência se arrogando o direito de dizer isso ou aquilo, e, na verdade, como seu exemplo acabou de dizer. O senhor citou três instituições que já existiam antes do presidente Bolsonaro. E eu pergunto, por que essas três instituições, com os governos anteriores, administrados na parte ambiental por aqueles que se arvoram de conhecedores absolutos do ambientalismo, por que eles não fizeram?”.

Galvão reagiu imediatamente, interrompendo o discurso do ministro: “Eles fizeram, o governo é que não fez”, disse, enquanto Salles seguia argumentando. O pesquisador continuou: “O senhor está criticando o Impa [Instituto de Matemática Pura e Aplicada]? O senhor vai criticar o Impa?”. Ao mesmo tempo, Salles falava: “Não fizeram, basta ir na Amazônia e ver. O senhor estava lá antes de janeiro. Eu estou criticando o raciocínio”.

O ministro seguiu, então, com as acusações aos institutos de pesquisa: “Há um grau de aparelhamento dessas instituições gigantesco”. Galvão interpôs: “Não existe ministro”. Salles retrucou, com ataque ao pesquisador: “Total. A sua postura com o presidente mostrou isso. Claro. A forma como o senhor se referiu ao presidente da República e ao…”. Neste momento, Galvão se dirigiu à apresentadora, Renata Lo Prete, pedindo mediação: “Ah, isso daqui, eu preciso de uma resposta agora. O senhor me desculpe”.

Lo Prete, então, deu a palavra. Galvão argumentou: “O presidente da República, ministro, chamou os dados do Inpe de mentirosos. Então, o senhor me escuta até o final. Ministro, o senhor me escute”, pediu, enquanto Salles tentava interrompê-lo. A apresentadora interveio e Galvão seguiu. “Eu quero dizer claramente a razão que eu fui tão rígido com o presidente”. Salles protestou: “Não, rígido não. Desrespeitoso”.

Galvão ergueu o dedo e devolveu: “Desrespeitoso de jeito nenhum. Desrespeitoso foi o presidente da República com a ciência brasileira. Vamos colocar nos termos o que ele falou. Ele falou categoricamente que os dados do Inpe são mentirosos. O que ele está acusando? Está acusando todos os cientistas do Inpe, inclusive, o Carlos Nobre, o Antonio Divino Moura, todos eles, de terem cometido crime de falsidade ideológica”.

Salles interveio e ambos discursaram um ao outro ao mesmo tempo. “Ele não disse nada disso, isso é a sua interpretação, junto com os cientistas que estão com o senhor nessa história toda de que o governo não respeita os cientistas. O governo colocou o Marcos Pontes para liderar o Ministério da Ciência e Tecnologia. É o maior orçamento, só aumenta o orçamento da Ciência e Tecnologia”, declarou o ministro.

Galvão, então, rebateu: “Ele colocou o ministro Marcos Pontes com 13 militares. Falam do aparelhamento, 13 militares”. Houve um breve tumulto, e o estudioso seguiu: “Além de abusar, ele me acusa de estar a serviço de uma ONG internacional. Acabei de receber, ontem, uma mensagem do ministro de Ciência e Tecnologia de Portugal, indignado. Eu não sou uma criança. Eu tenho uma respeitabilidade internacional enorme. Como é que ele fala? No dia seguinte, eu recebi 30 mensagens de colegas do exterior. O presidente me acusa… O senhor não acha isso errado, ministro? O senhor me desculpe, mas seja sincero”.

Os dois seguiram trocando críticas. Salles defendeu Bolsonaro: “Aqui há uma linha divisória. O presidente é uma autoridade política. E como autoridade política, ele tem uma determinada visão”, enquanto Galvão dizia que o presidente não tem “autoridade moral” para fazer as acusações. Salles voltou a atacar o pesquisador: “O senhor que coloca os cientistas acima dos cidadãos tinha que ser o primeiro a ter que ter tido autocontrole e postura compatível”.

A mediadora interrompeu a discussão e deu a palavra ao terceiro convidado da mesa, Marcelo Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio. No dia 4 de agosto, Bolsonaro falou pela primeira vez, em Brasília, sobre a demissão de Ricardo Galvão. “Eu não peço. Certas coisas, eu mando. Por isso que sou presidente. Após as declarações dele a meu respeito, pessoais, não tinha clima para continuar mais. Não tinha clima.”

Dados desagradaram Bolsonaro
Galvão foi demitido após o Inpe divulgar dados preliminares que mostraram que mais de 1 mil km² de floresta amazônica foram devastados só na primeira quinzena de julho deste ano. O número representa um aumento de 68% em relação a julho de 2018. O levantamento é do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), plataforma criada em 2004 que produz, diariamente, alertas de alteração na cobertura florestal para áreas maiores que três hectares. Os alertas são enviados automaticamente ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Procurado, o Inpe afirmou a CartaCapital que o objetivo do sistema Deter é disponibilizar dados em tempo real. Isso quer dizer que submetê-los à consulta do presidente da República antes da divulgação fugiria da praxe do órgão e do propósito da plataforma. Além disso, o Instituto publica relatórios mensais para reunir esses dados. Esses documentos, segundo a instituição, já são submetidos ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC) e ao Ibama antes da divulgação.

No lugar do pesquisador, o ministro Marcos Pontes nomeou, no dia 5 de agosto, o militar da Aeronáutica Darcton Policarpo Damião como diretor interino da instituição. O Ministério também anunciou mudanças no sistema de monitoramento da Amazônia.

Fonte: Rolim Notícias com informações cartacapital

batem boca   Ministro do Meio Ambiente   ex-diretor   Inpe   ciência  

Mais em Política

Notificações

Se você gostou do nosso conteúdo, podemos lhe enviar notificações push sobre postagens selecionadas.